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Morte em vida |
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Instituto de Arte, UNICAMP, Campinas
13 de novembro de 2003
A primeira ação foi apresentada no encerramento da disciplina Arte e Sociedade, na UNICAMP, desenvolvida pelos professores Renato Cohen e Daniela Kutschat, integrando uma performance em grupo que incluía fragmentos de ações de todas as participantes. Chamei minha ação de Morte em Vida. A performance aconteceu após o inesperado falecimento de Renato, que causou uma grande comoção em todos os envolvidos no processo da disciplina. Nesta ação, foram realizados registros em vídeo, fotografias e seis lençóis brancos entintados com fragmentos dos corpos e palavras impressas. Para esta performance, Renato Cohen nos propôs uma montagem pensando em Inter-textos1. O grupo foi composto por Daniela Pinotti Maluf, Mara Leal, Luciana Lyra e eu. A partir desta proposta e do projeto em desenvolvimento por cada uma para o mestrado, elaboramos um roteiro. A idéia foi reunir as propostas, inserindo citações de textos e trabalhos de autores relacionados às pesquisas, criando intertextos. Os trabalhos levaram-nos ao tema Morte. As pesquisas, de cada uma, contribuíram na concepção do trabalho: de Mara sobre o diretor teatral George Tabori2 que aborda constantemente a morte; a minha com a performance elaborada para Corpo Re a partir do projeto Impressões da Memória3; o jogo de xadrez com mulheres nuas encapuzadas é referência a Marcel Duchamp4, sugerida por Daniela, e a performance com os lamentos faz parte das investigações de Luciana, que tem seu foco nas danças e nos cantos regionais do nordeste. O roteiro da ação foi previamente elaborado com os detalhes básicos, como objetos de cena e materiais utilizados, mas o desenvolvimento da performance deu-se no próprio momento da ação, sem ensaios prévios, desde a instalação à apresentação. A instalação era formada por um corredor com seis lençóis, três de cada lado. Os lençóis das extremidades eram de algodão branco e os do meio da passagem eram de organza, para se obter uma maior transparência. Ao fundo deste corredor, uma televisão e, na entrada, uma mesa com duas cadeiras e um jogo de xadrez. O corredor representava a passagem que todos fazemos na vida e as impressões dos corpos, deixadas nos lençóis, representavam as marcas que deixamos ao amanhecer. No início do corredor, havia duas participantes jogando xadrez na mesa e, no final, havia uma televisão que exibia um vídeo no qual Tabori falava sobre a morte. A sala escura era iluminada no chão e pela luz da televisão ao fundo. Por fora do corredor, espalhadas pelo chão, por onde circulavam as pessoas, havia pétalas de flores e recortes de jornais, cópias de textos e imagens que se referiam à morte. A ação iniciou-se com Luciana entrando na sala nua, com o corpo pintado de branco, cantarolando uma melodia lenta, cheia de lamentos. Daniela e Mara estavam jogando xadrez e eu lia trechos de textos sobre morte, vida e arte. Também se ouvia a voz de Tabori, vinda da televisão. Luciana aproximou-se da mesa de xadrez e convidou Daniela a fazer sua passagem. Ocupei seu lugar na mesa e passei a jogar xadrez. Daniela posicionou-se na entrada do corredor, despiu-se e foi entintada em algumas partes de seu corpo. O corpo foi impresso nos lençóis e, no final do corredor, ela recebeu um capuz preto e voltou à mesa de xadrez, convidando Mara a fazer sua passagem, sentando-se em seu lugar e permanecendo imóvel. Mara realizou sua passagem, falando da morte de sua avó e cantarolando cantigas de sua infância. Ela também foi pintada, imprimiu partes de seu corpo nos lençóis, foi encapuzada e retornou à mesa de xadrez, convidando-me para a minha passagem pelo corredor. Realizei minha caminhada em silêncio, registrei meu corpo e, encapuzada, voltei à mesa de xadrez. Neste momento, a fala de Tabori chegou ao fim, ouvindo-se apenas o chiado da televisão e, na tela, os chuviscos, apagaram-se as luzes e encerrou-se a performance. Após a elaboração do roteiro e durante a preparação do material para a apresentação, Renato Cohen faleceu. Recortando matérias sobre morte nos jornais, para utilizá-las na performance, encontrei a morte de Renato anunciada. O impacto causado por sua morte e o modo como tudo aconteceu reforçou ainda mais a sensação da efemeridade do corpo. O trabalho elaborado falava da morte e ela rondava aqueles dias. Apesar de tudo, decidimos concretizar a apresentação. Foi um rito de passagem para todos que participaram da performance e para os que assistiam a apresentação. As marcas estavam registradas. Após a ação, fizemos um encerramento com um debate sobre o trabalho.
_____________________ 1. Para além da completude e da polifonia de vozes interpretativas que se fazem escutar, o que caracteriza um texto também é o fato de ser um tecido repleto de não-ditos, que necessita do auxílio do leitor para complementar e dizer esses não-ditos. Trata-se, na verdade, de um grande tecido intertextual de significação. Sob essa perspectiva, o texto passa a ser visto como o local onde as várias linguagens se articulam, se interpenetram e colidem, composto por uma série de fragmentos, códigos e linguagens provenientes de outros textos. Ao permitir/esperar que seja re-lido, re-escrito e re-interpretado, abre-se ao diálogo e atualiza-se constantemente, transformado-se em um território plural e multifacetado, em que autores, leitores e demais textos que o precederam, interajam entre si. Polifonia de vozes que se fazem escutar: explícitas e tácitas. [...] A questão da intertextualidade ou, dito de outra forma, do permanente diálogo de uma obra literária (KESKE, 2005). 2. George Tabori (1914-2007), nascido em Budapeste, foi um dos principais dramaturgos contemporâneos da língua alemã. De origem judaica, seu pai morreu em Auschwitz. O teatro de Tabori ajuda a elaborar o passado nazista. Autor de mais de 50 peças, além de quatro romances, inúmeros contos e peças radiofônicas 3. Trabalho desenvolvido em 2002, em parceria com a escritora Karen Debértolis, através do PROMIC - Lei de Incentivo a Cultura de Londrina. São impressões de poemas visuais sobre lençóis brancos a partir de palavras e fragmentos do corpo. 4. Marcel Duchamp nasceu em Blainville-Crevon, em 28 de julho de 1887 e morreu em Neuilly-sur-Seine, em 2 de outubro de 1968. Foi um dos precursores da arte conceitual e introduziu a idéia de ready made como objeto de arte. |
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