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Influências e Formação Raiz |
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Meu pai, o jornalista Antonio Vilela de Magalhães (1925-1985), mais conhecido como Vilela, em frente à sua mesa de trabalho, com uma pilha de jornais. Era assim o seu dia-a-dia, a mesa cheia de papéis, fotografias, a máquina de escrever e ele com o cigarro entre os dedos do meio da mão, para poder, ao mesmo tempo, escrever seus textos e fumar. Seu sorriso simpático e sua cabeça repleta de idéias novas, de pensamentos interessantes, de poesia e de arte - o teatro, a cultura, o cinema, a fotografia e a memória. Assim era meu pai, jornalista, poeta, ator, fotógrafo, um artista multimídia. Foi através dele que me aproximei e me apaixonei pelas artes, em especial, pela fotografia. |
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Quando ele morou em São Paulo, no final da década de 1940 e começo de 1950, trabalhou na Editora Melhoramentos, fez curso de teatro na Escola de Artes Dramáticas (EAD) e ainda fazia poesia, fotografia, cinema e balé. Suas histórias, vivências, experiências e seu acervo fizeram parte de minha formação, influenciaram-me e permearam o meu dia-a-dia. Os álbuns de fotografia, as projeções de slide e filmes, os livros de teatro, desenhos, artes visuais e literatura foram a minha escola visual e as minhas primeiras referências de forma, cor, volume, espaço, representação, estética e poética. Pensar livremente as imagens como eu as sentia. Estas referências são o sustento e a raiz de meus trabalhos. Em Londrina, meu pai teve várias livrarias e uma tipografia, motivo pelo qual veio morar no então promissor Norte do Paraná. Na primeira delas, a Livraria Alfa, foi onde também nasceu o Grupo Permanente de Teatro – GPT (MENDONÇA, 2006); na tipografia ele criou vários jornais que circularam pela cidade, como o Seqüência e o Newsy. Também trabalhou no jornal Folha de Londrina e na Universidade Estadual de Londrina. Minha mãe, Terezinha Lima Vilela de Magalhães (1939), é professora e dela vem o sensível amor que impregna meus dias e minhas produções. É de minha mãe que tenho referência das questões de gênero além de minhas atuações na áre da educação e formação. Por vezes minha mãe dava aulas à noite e, então, eu acompanhava meu pai em seus trabalhos noturnos e aquilo para mim era uma diversão. A tipografia se localizava na rua Mato Grosso, bem no centro da cidade de Londrina, e era um dos lugares que eu freqüentava. Eram vários barracões que desciam até o meio do quarteirão. Embaixo da escada, havia o laboratório fotográfico e no piso inferior ficava a grande guilhotina que, com sua lâmina afiada, cortava pilhas grandes de papel. |
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No fundo do último barracão, ficavam as mesas de tipos, as famílias todas, uma ao lado da outra, lindas, de madeira, com suas gavetas cheias de divisões, formando uma composição de linhas, cores, texturas e formas, com os tons da madeira em contraste com o cinza chumbo dos tipos. Neste ambiente cheio de informações, outros sentidos agregavam-se, como os cheiros das tintas, dos ácidos, do papel e da cola. Também havia os tipógrafos, montando as páginas sobre as mesas ou trabalhando nas máquinas, com os quais eu me relacionava e aprendia brincando. Eu circulava por aqueles barracões escrevendo ou ajudando nas encadernações, cortando, colando ou observando os tipógrafos montarem os jornais. Lembro dos barulhos, do ritmo das máquinas, das furadeiras, prensas, armários, pedras-peso, livros, jornais, agendas, o balcão da entrada, a sala de aula do Tio Eli e do cômodo onde morava o Tio Marcial. |
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Às vezes, no caminho para a tipografia, meu pai comprava leite de saquinho e improvisava copos de papel com dobraduras. Aquilo era uma delícia, além de muito inusitado: beber leite num copo de papel feito na hora. Estas vivências eram momentos de prazer e encantamento e a fotografia nasceu ali. Conheci o laboratório fotográfico da tipografia aos seis anos de idade, ele era grande, pelo menos aos meus olhos, com sua luz vermelha, as bacias com químicas e o cheiro do ácido acético. Lembro com uma nitidez impressionante, que parece dissolver o enorme espaço entre as distâncias atravessadas1, de meu pai mexendo nas fotografias que surgiam nas bacias e daquelas imagens que me capturaram para sempre. Ainda sinto saltar dentro de mim aquela emoção e a certeza que tive naquele momento. Encantada, falei ao meu pai que eu queria ser fotógrafa. Meu pai adorou meu entusiasmo e ganhei uma câmera Polaroid. Foi com ela que fiz minhas primeiras fotos. Ele me ensinou, fazia sugestões e leituras críticas sobre o que eu produzia, mostrava tudo usando a própria linguagem. Ele me estimulava e, ao mesmo tempo, levava-me a uma reflexão sobre a minha produção. Esta foi a referência mais importante para minha formação como artista. Suas produções, orientações e seu amor provocaram em mim uma paixão pela arte, que me acompanha e me leva a produzir todos os dias. Esta possibilidade das imagens surgirem do nada, emergirem da invisibilidade - como emergir do fundo de um rio, como as vibrações mais profundas encravadas em meu corpo - que transbordou como arte mais tarde em minha vida. Ainda percorri com meu pai seus outros locais de trabalho, como a redação do jornal Folha de Londrina e a Universidade Estadual de Londrina. No jornal eu brincava com as fotografias que se avolumavam em grandes recipientes de madeira espalhados pela redação, corria entre as mesas e conversava com os jornalistas que fechavam a edição, batucando em máquinas de escrever. Muitas vezes, observava a diagramação e brincava com as letras e as imagens. Também corria pela gráfica entre as impressoras offset e rolos de papel jornal. Na Universidade Estadual de Londrina, atrás da mesa do meu pai, cheia de slides, fotos e jornais, eu desenhava e escrevia. Guardo as lembranças dos áudio-visuais que ele montava, com vários projetores de slides e fusões de imagens, num intrincado quebra-cabeça, com controles de projeções manuais, que hoje são tão facilmente realizados por programas de computador. Naquela época, estes eram desafios a serem enfrentados, tal a complexidade e a dificuldade de execução. Eu ficava fascinada com aquela engenharia. Lembro-me, ainda, dos pernilongos, das árvores sendo plantadas e dos burburinhos políticos que aconteciam, diariamente, enquanto meu pai trabalhava. |
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Dentro do espaço familiar também estávamos sempre envolvidos em pesquisas e produções. Nossas brincadeiras incluíam fazer cadernos de animação, pintar, construir casas de jornal no quintal, utilizar o grande gravador de rolo com o qual fazíamos experiências com nossas vozes, além de experiências com as filmadoras 16 mm e Super 8 de meu pai. Havia ainda as estantes da sala com livros de arte, catálogos e muita papelada, e o porão abarrotado de papéis velhos, revistas, restos da tipografia, fotografias, negativos, uma coleção de selos, além de anotações, cartas e outros achados. O caos do porão e os acúmulos levaram-me a expedições de salvamento dos tesouros daquele acervo. Este foi o caminho pelo qual me aproximei das artes, entre brincadeiras, interesses e produções diárias de experiências estéticas. Estive sempre em várias fronteiras, de identidades imprecisas, múltiplas e rizomáticas. Mas a fotografia perpassou tudo. Foi através dela que construí a minha poética. |
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Além de meu pai, mas ainda no universo familiar, uma tia esteve presente em minha formação para as artes. CARMELITA VILELA DE MAGALHÃES (1944-1970), artista, socióloga e professora, que atuou em Londrina entre os anos de 1967 até 1970, período no qual, entre outras atividades, criou e manteve a Pequenos Artistas - Escolinha de Artes de Londrina, onde pude participar das atividades até os meus sete anos, época em que ela faleceu num trágico acidente. Sua escola ficava em um apartamento que era todo um ateliê. As crianças circulavam pelas salas, podendo experimentar tudo com liberdade, entre lápis, papel, tinta a óleo, guache, aquarela, tela, sucata, argila, cavalete, prensa, goiva, lata, couro, madeira, tecidos e tantos outros materiais. Ela conversava com as crianças perguntando, ouvindo, debatendo, sugerindo e sorrindo sempre. Aquela vivência contribuiu no meu contato com as expressões artísticas, com a produção e os pensamentos que constroem meu trabalho. A ação em expressar, pelas artes, com suas múltiplas possibilidades de construção, são caminhos encontrados nestes ninho2, os quais percorro como artista. |
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1. [...] sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas. Por certo, o que assim palpita no fundo de mim deve ser a imagem, a recordação visual que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar a mim (PROUST, 2006, p. 72).. |
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