[...] um criador é alguém que cria suas próprias impossibilidades, e ao mesmo tempo cria um possível [...] pois sem um conjunto de impossibilidades não se terá essa linha de fuga, essa saída que constitui a criação [...] É preciso escrever líquido ou gasoso, justamente porque a percepção e a opinião ordinária são sólidas, geométricas. [...] certamente não é compondo palavras, combinando frases, utilizando idéias que se faz um estilo. É preciso abrir as palavras, rachar as coisas, para que se liberem vetores que são os da terra. [...] todo criador é uma sombra [...]. A partir do momento em que se escreve, a sombra é primeira em relação ao corpo (DELEUZE, 1992, p. 167).
     
 

O projeto Corpo Re-Construção Ação Ritual Performance é um trabalho rizomático1, múltiplo e em expansão, iniciado em 2003 e construído a partir de ações performáticas com a participação de grupos convidados. As performances realizadas por mim e pelos participantes compõem este corpo. São registros e conexões que se transformam, no trabalho, como partes linkadas e expandidas e que imprimem marcas, rastros de nossa passagem, como uma metáfora da vida. O grupo de performers cria corpos diversos e coletivos, construídos com diferentes mídias, em rede e maleáveis, que se estendem, podem se tocar e se multiplicar. O trabalho é composto pelas ações performáticas e também pelos seus registros, tais como lençóis impressos, fotografias, vídeos, desenhos, gravuras, paisagens sonoras e relatos, além do livro-tese e do site que são partes multiplicadoras, células que constituem e transformam a produção. Flexível, o trabalho não tem formas definidas ou definitivas. Ele está em construção contínua, neste tempo e espaço estendido.

Este texto estrutura-se a partir da minha experiência na realização de um trabalho artístico e das reflexões sobre esta vivência. A publicação busca criar linhas de fuga e conectar-se com os leitores / participantes / acessadores, criando assim uma rede em expansões rizomáticas.

     
   
O mundo tornou-se caos, mas o livro permanece sendo imagem do mundo, caosmo-radícula, em vez de cosmo-raiz. Estranha mistificação, esta do livro, que é tanto mais total quanto mais fragmentada (DELEUZE; GATTARI, 2007, p. 14).
     
 

O texto se divide em três blocos. No primeiro, trato das referências externas, das influências recebidas e de minha formação. No segundo núcleo, falo da minha construção como artista, os trabalhos e o percurso do pensamento que constrói meus projetos. O terceiro discorre sobre a pesquisa, produção e realização do projeto Corpo Re-Construção Ação Ritual Performance.  São textos que se interconectam buscando abordar estas experiências na produção da arte.

O primeiro, Mergulho do Corpo: Influências e Formação, contém três ensaios, Raiz, Rizoma e Trans Revolução e apresenta os caminhos de minha formação como artista. Raiz aborda as referências de meu pai, meu primeiro professor de arte, um universo familiar que me proporcionou a base para percorrer esta minha trajetória como artista. Além dele, ainda contei com a presença de minha tia Carmelita, que teve importância nestes primeiros contatos com a produção artística. Rizoma aborda outras referências: artistas, fotógrafos, escritores, pesquisadores e filósofos com seus trabalhos e conceitos, presentes no percurso da construção do trabalho. Trans Revolução é uma síntese poética de minhas emoções sobre estas referências, escrito em meus cadernos de artista, entre desenhos e colagens, e transcrito aqui com a intenção de trazer um pouco de minhas anotações para o texto.

O segundo texto, Fotografias Contaminadas, é dividido em cinco ensaios. O primeiro, Pelas fotografias escrevo sobre o meio utilizado para a construção de minha poética e estabeleço relações entre ela e outras linguagens.  Refiro-me a esta fotografia híbrida, perpassada por outras experimentações plásticas que permitem a construção de meus projetos até chegar em Corpo Re-Construção Ação Ritual Performance2. O segundo, Performance e desenho: ações com o corpo, aborda como esta expressão está presente nos meus trabalhos, especialmente em Corpo Re-Construção, no qual assumo este movimento com o corpo como constituinte do trabalho. Também irei tratar do desenho na construção de meus trabalhos fotográficos, da criação do desenho no espaço com os movimentos do corpo, da dança e da performance, a partir dos registros das ações como as impressões em lençóis, fotografias, vídeos, desenhos, gravuras e paisagens sonoras: uma relação estabelecida entre-com as linguagens, que potencializa a obra proposta e agrega a ela novos significados.  O Corpo como inscrição no mundo refere-se a algumas questões relacionadas ao corpo que levam às reflexões e à construção da obra. É através dos embates deste corpo, e a partir dele, que surgem as criações que se desenvolvem nas relações de gênero e da alteridade. O Corpo de Plástico trata das questões contemporâneas relacionadas ao corpo e a diversidade que perpassa toda a construção do projeto.

Finalmente, apresento Corpo Re-Construção Ação Ritual Performance, buscando demonstrar como se estrutura e se desenvolve o projeto, os pensamentos e as ações que o constroem. Trama descreve a idéia do projeto. Os textos seguintes, as Ações de 1 a 9, buscam abordar cronologicamente o desenrolar das performances, os participantes, os lugares, os registros realizados, alguns depoimentos e outros dados.

Em Linhas de Fuga, procuro traçar algumas reflexões sobre o trilhar deste percurso na busca pelo trabalho. Além de meus textos, o livro conta ainda com desenhos e anotações realizados no Caderno Verde União, um dos muitos cadernos que produzi durante os anos de 2003 a 2008; as fotografias e outros registros das performances.

Cabe ainda ressaltar que no site se encontram parte dos arquivos presentes no livro e outros arquivos que não estão impressos, como fragmentos dos vídeos e das paisagens sonoras. O objetivo da construção do site é possibilitar o acesso e a multiplicação, assim como mostrar os registros multimídia do trabalho.

     
     
 

1. O rizoma não é objeto de reprodução: nem reprodução externa como árvore - imagem, nem reprodução interna como a estrutura - árvore. O rizoma é uma antigenealogia. É uma memória curta ou uma antimemória. O rizoma procede por variação, expansão, conquista, captura, picada. Oposto ao grafismo, ao desenho ou à fotografia, oposto aos decalques, o rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga (DELEUZE; GUATARRI, 2007, p. 32-33).

2. Ao longo deste texto refiro-me a este projeto pela sua abreviação, Corpo Re ou Corpo Re-Construção.

   

fernanda magalhães