Trama

 

   
Mas ela (a pele) é apenas uma superfície de registro dos sinais da aparência. Romper sua superfície jamais permitiria que se visse o que há por detrás, já que a própria pele é um existir que se dá a ler, a ver e a tocar. Em vez de considerá-la como uma superfície intermediária entre o de fora e o de dentro, parece que, no dia-a-dia, ela é mais uma superfície de auto-inscrição, como um texto, mas um texto particular, pois seria o único a produzir odores, sons e a incitar o tocar (JEUDY, 2002, p. 84).
 
   
 

O projeto Corpo Re-Construção Ação Ritual Performance surge em 2003, logo após meu ingresso no programa de mestrado em artes na UNICAMP, quando descobri que tinha um câncer de útero. Isto provocou uma transformação brusca em minha vida e em meu corpo. O trabalho surgiu nesta fase de transformação e colapso total. Um corpo transmutado com cortes, invasões e mudanças em sua forma e essência. A pele, a cicatriz, os efeitos colaterais, a radioterapia, as queimaduras, o sofrimento, tudo leva a mudanças e instabilidades. O trabalho surge como a necessidade que temos do outro na reconstrução do nosso próprio corpo e que se faz necessária na busca deste corpo pela vida. A procura por uma rede de forças, uma teia que possibilite a vida para o nosso frágil e efêmero corpo.

O sofrimento deste corpo já tão dilacerado, pelos preconceitos e exclusões anteriores, foi invadido, de forma arbitrária, pela doença. No meio do caos, no fundo da dor e na entrega deste corpo em estado de tensão, surge a produção das ações que compõem Corpo Re. O trabalho emerge como possibilidade de sobrevivência através da arte, numa idéia de que as relações podem trazer força e amor, possibilitando vida e expansão. Arte e vida conectadas. A força da ação se estabelece através das relações com o outro que atua na expansão do trabalho.

Neste processo de descontrole da vida presente e da morte vislumbrada, a produção tornou-se essencial na busca do corpo pela vida e, assim, se concretizou a partir destes sentimentos, do amor ao horror, faces que se apresentaram como luzes e sombras profundas e que impregnaram o trabalho.
Corpo Re é um corpo que se reconstrói de migalhas, é vida após a morte, no momento em que deixa de ser uma ação individual, como nas séries anteriores, e passa a ser uma obra coletiva e pública. O trabalho valoriza a troca com o outro, a diversidade e as possibilidades do corpo, permitindo assim novas construções. Trata-se de um ritual de transformação através da transcendência da arte, já que é através dela que rompemos barreiras e transcendemos a realidade, criando outras múltiplas faces, novas sensações e percepções. Assim, as ações realizadas possibilitam a reconstrução de um novo corpo, a partir dos fragmentos solitários de cada um de nós. Corpos unidos em rede que se encontram buscando novas possibilidades de existência. Corpos múltiplos, únicos e possíveis a cada ação, que existem a partir do encontro e da troca com outros corpos.

O corpo como inscrição no mundo. Uma ação que busca sua própria reconstrução pensando na fragmentação dos seres contemporâneos. Seres solitários, individuais, isolados, entre guerras de bombas e guerras de nervos, dilacerados, com as referências e as contaminações que invadem os cérebros, os pensamentos, as entranhas e as células mais íntimas. Corpos que buscam um encontro, uma troca, uma expansão e a vida.

Neste trabalho, também penso na atuação do corpo como ação política: um corpo que se coloca e que atua causando uma modificação através de seus posicionamentos; um corpo que se funde em tantos outros para ocupar seu espaço no mundo, deixando suas marcas, seu pensamento, suas reivindicações, posicionando-se e reconstruindo-se.

A ação inicia-se com uma conversa com os convidados, expondo o projeto e seus objetivos, detalhando as ações que estão para se realizar e ouvindo cada participante sobre as suas intenções nesta construção. Depois começo, com o apoio de uma assistente, sendo entintada e realizando a impressão de parte de meu corpo sobre o lençol. Em seguida, estes primeiros fragmentos começam a compor uma imagem com as impressões das partes dos corpos das pessoas que participam da ação.  As imagens sugerem novos corpos reconstruídos a partir dos fragmentos impressos sobre os lençóis. Cada participante disponibiliza parte de seu corpo para ser pintado e é convidado a realizar também outros registros. Várias performances acontecem, simultaneamente, para a construção do Corpo Re. Outros registros destes corpos são feitos por meio de fotografias, vídeos, desenhos, pinturas, gravuras, paisagens sonoras e relatos realizados pelos participantes. Todos os registros são parte constitutiva do trabalho, no qual também estão presentes outras ações casuais, sobre as quais não se tem controle, conhecimento ou domínio, como as mudanças climáticas, as tintas derramadas, os borrões e outros inúmeros incidentes que acontecem no transcorrer da ação.

O trabalho realiza-se, também, em seus desdobramentos, como em instalações, exposições, publicações e palestras. É a partir de sua multiplicação que este corpo existe e tem vida.

Os lençóis escolhidos como meio para a construção deste trabalho representam, para mim, o fluxo da vida e o sono como uma metáfora da morte. É através destas impressões nos lençóis que aparecem os registros de nossos rastros, como as marcas deixadas pelos nossos corpos ao amanhecer. A idéia surgiu a partir das lembranças dos desenhos que eu e minha irmã fazíamos nas costas de meu pai e que ficavam impressos nos lençóis após uma noite de sono. O suor de seu corpo transferia a tinta para os lençóis brancos e, ao despertar, os desenhos estavam registrados nos tecidos brancos, interferências nossas no corpo de meu pai, deixando à mostra as nossas relações de afeto e amor.  O toque, o contato, a confiança e o carinho estão depositados na ação, e o registro das vivências, emoções e momentos compartilhados estão naquelas impressões.

Estas emoções trazidas para a ação propõem este momento especial, em que as pessoas são convocadas a uma entrega, a doação de si mesmas e de partes de seus corpos, como matrizes para as impressões. Os registros de seus corpos, através do contato com a tinta, o pincel e a mão que toca, pintando e imprimindo, constroem o trabalho. A soma destes fragmentos de corpos e destas emoções compõem este ritual. São sentimentos misturados, confusos e antagônicos: curiosidade, timidez, vergonha, desejo, carinho, confiança, encantamento, doação e tantos outros. Esses sentimentos surgem espontaneamente durante a ação e são relatados pelos participantes.

fernanda magalh„es